Olhar para o espelho nos "entas", por vezes, dá azo a pensamentos profundos e introspectivos mas nada de ilusões... gaja que é gaja continua gaja mesmo depois do ponto de não retorno!
Algo que descobri depois da minha entrada no vórtice negro foi que o meu espelho devolve uma imagem que não me desagrada totalmente... Convém fazer um pequeno parêntesis para esclarecer que não me refiro a introspecção e essas cenas filosóficas e psico-analíticas, refiro-me mesmo a cenas fúteis como o aspecto físico. Bom, não sei se esta ideia deriva de algum conformismo/resignação porque, uma vez que nasci com esta "embalagem", o melhor será habituar-me a ela, ou se são os anos vividos a criar uma capa que remete todas as inseguranças antigas para o esquecimento. A verdade, é que não me incomoda se a perna é torta ou direita, o braço é magro ou gordo... Descobri nos "entas" que sou vaidosa (q.b.) e que o sou, sobretudo, para mim.
Ora, como elemento do sexo feminino, partilho a mesma paixão que a esmagadora maioria das mulheres tem por sapatos. Qual é a mulher que não se perde a observar cuidadosamente uma montra de sapataria repleta de exemplares reluzentes? Ali estão eles, tão bonitos, solitários, carentes a ansiar por um par de pés...
Basicamente a minha paixão por sapatos cessa aí, uma vez que, assim que entro na sapataria, todo o mundo de fantasia cai por terra e torna-se num pesadelo.
A moda evolui cada vez mais rapidamente e, em matéria de calçado feminino, a imaginação dos criadores tem voado alto... muito alto... tão alto ao ponto de hoje termos sapatos que mais parecem andas e que exigem que as mulheres se tornem equilibristas/saltimbancos/artistas de circo e afins! Como se não bastassem saltos que se assemelham espadas de esgrima, ainda lhes juntam plataformas dignas de atravessar qualquer cheia do Ribatejo!
Amigos criadores e fabricantes, não há condições! Tenham dó! Os sapatos podem ser lindos mas não se consegue andar com eles! Sendo assim, qual o sentido? Podem dizer... ah e tal... há muitas mulheres que andam... É um facto! Ficam lindas! Altas, elegantes, com pernas torneadas e alongadas, com dores indescritíveis nos pés após 5 minutos, com joanetes e dores de costas... Como é linda a moda! Como é bom caminhar nos passeios esburacados e com calçada à portuguesa escorregadia, entrar e sair dos transportes públicos, conduzir e sentir o salto a enrolar-se nos tapetes do carro. Há alguma coisa mais prática?
E nos casamentos? Ali estão elas todas janotas, no alto das suas plataformas de 10 cm e saltos de 25! Ninfas impecavelmente vestidas, penteadas e maquilhadas, de clutch numa mão, croquete na outra e salto completamente enterrado na relva da Quinta Quem-viu-uma-viu-todas. Como vão elegantes com os seus belos sapatos que, assim que tiram a foto da praxe, trocam pelas sandálias rasas porque já não há quem aguente a sola do pé e o joanete a latejar...
E nas discotecas? Lá estão elas, na sua dança sensual tipo "tuna", que consiste em abanar a anca da esquerda para a direita, com o cuidado de não sair do mesmo lugar, levantando apenas um dos pés à vez para aliviar a dor e porque aquela vaca que está sentada no único banco de toda a discoteca não há meio de arredar pé! E como é bonito observá-las à saída, com os seus preciosos exemplares na mão, enquanto caminham descalças pela rua ou calçadas mas completamente tortas, quase sem conseguir dar passo e de rosto tolhido pela dor...
Como é bom ser uma mulher elegante... Sim, porque se convencionou que mulher elegante anda de salto alto... bem alto,.. até para ir do quarto ao wc e voltar... como nos filmes e nos anúncios da TV...
Voltando ao pesadelo das sapatarias, mulheres como eu, que adoram sapatos mas não apreciam "andas", têm a vida dificultada porque os criadores de moda e os fabricantes de calçado parecem ter esquecido que é possível fazer sapatos elegantes com saltos médios e rasos. Sendo eu uma mulher com alguma altura, se comprar umas "andas" de 10 cm de plataforma e 20 de salto, vou ter de passar a ter um cuidado extremo ao atravessar portas, não vá bater com a cabeça; se optar por rasos as opções resumem-se a sabrinas, sapatilhas, mocassins e sapatos geriátricos.
Não é fácil ser uma mulher vaidosa, apaixonada por sapatos e que detesta andar de "andas"!