sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Frio


Sendo eu uma pessoa que já viveu um bom par de décadas... ou dois pares de décadas, para ser mais precisa, há certos momentos na minha vida profissional em que o sangue me parece gelar nas veias. Por muita experiência que tenha e por muito que pense que estou preparada, a verdade é que não estou.

Hoje passei por uma situação dessas. Um desconforto indescritível. Frio, muito frio, tanto que mal conseguia mexer os dedos das mãos. O corpo tremia e o casaco grosso e o cachecol não eram suficientes nem pareciam adequados. Sentia o frio a penetrar-me a pele como agulhas. Muito frio, ao ponto de sentir os ossos gelados.

Não me conseguia concentrar e sentia que não seria capaz de executar as tarefas que tinha estipuladas para o dia. O único pensamento que me ocorria era o tempo que ainda tinha de estar naquele local. Queria sair dali, fugir para onde pudesse sentir o aconchego de um ambiente menos hostil.

Mas acredito que o ser humano é mais forte do que julga e eu fui mais forte! Aguentei! O sangue parecia não circular, os dedos hirtos pareciam não obedecer, o frio a percorrer-me o corpo... aguentei!

Até ao momento em que me libertei daquela situação. Alívio!

Como é bom, recuperar o sentido do tacto, a concentração, levar a cabo as tarefas e, no fundo, cumprir o meu dever apesar dos maus momentos passados.

E é com estupefacção que ainda me pergunto: quem terá regulado o climatizador para o frio?!?!?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

The grass is always greener on the other side

Há uns anos, quando a internet não fazia parte do nosso quotidiano nem sequer do nosso vocabulário, as notícias chegavam com a rapidez de um jornal, de um telefonema, ou da rádio e televisão. Hoje temos o mundo nos nossos smartphones e toda a informação acessível em segundos. Porém, apesar da rapidez e facilidade de acesso à informação, as pessoas continuam a comportar-se como a "ti Alzira" e a "ti Amélia", à janela, a verem quem passa e a falarem da vida dos outros e as redes sociais são um dos principais promotores destes comportamentos.

De uma forma geral, talvez por terem tanta informação rápida e pronta a usar, as pessoas tendem a não perder muito tempo a pensar. É comum criarem-se juízos de valor com a ligeireza de quem bebe um simples copo de água. E faço um mea culpa pois eu também já caí neste erro e, certamente, irei cair nele no futuro... Espero que os "entas" me ajudem a ter a capacidade de auto-crítica para evitar situações dessa natureza.

Se há algo que me irrita profundamente são as comparações. Nunca gostei. Em criança, se me queriam ver irritada bastava dizerem-me pérolas como: "ah... não gostas de correr? Mas olha que a Sandrinha (naquela época todas as meninas se chamavam Sandra, Sónia ou Carla, excepto eu) é uma excelente atleta!". Com o tempo, fui deixando de dar importância a este tipo de comparações, mas continuo a não compreender, por exemplo, a comparação de problemas! Não consigo digerir com facilidade que alguém diga "oh que chato, a tua casa ardeu num incêndio? Pois... mas a minha ardeu e ruiu, tu ainda tens as paredes"...

Como é possível comparar situações duras? Cada um sabe da sua vida! Ou devia... excepto as "ti Alziras e Amélias" que sabem mais da vida dos outros do que das delas próprias.

Que legitimidade têm as "ti Alziras e Amélias" para julgarem a minha vida? Por acaso conhecem-me o suficiente para tal? Ou apenas pensam que me conhecem? Só porque não coloco toda a minha vida online sou uma felizarda, com uma vida cor-de-rosa e sem problemas? Pois que pensem assim... Quem me conhece bem sabe o meu percurso e quais as subidas e descidas que o compõem e isso basta-me!

É muito fácil apontar o dedo! Oh se é!... 

The grass is always greener on the other side...

Let it be!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

(in)Certezas



Todos os dias me deparo na minha vida profissional e pessoal com pessoas cheias de certezas absolutas. Todos os dias observo pessoas cheias de certezas absolutas nos meios de comunicação social. Todos opinam, todos sabem, todos comentam. 

Eu só tenho uma certeza absoluta: nasci e um dia morrerei.

Confesso que me causa alguma estranheza estas pessoas tão sábias e esclarecidas, que vêem tudo com uma clarividência tal, como se tivessem epifanias de cinco em cinco minutos! Para elas tudo é linear, rectilíneo, preto ou branco, defendem as suas certezas até às últimas consequências, não considerando sequer a possibilidade de estarem erradas e jamais mudam de ideias. É tão simples apontar o dedo... difícil é calçar os sapatos do outro e percorrer o mesmo caminho! 

A vida nunca é preto ou branco, é também cinzento, amarelo, verde e todas as cores possíveis e imaginárias e é por isso que eu vivo com dúvidas, muitas dúvidas, diariamente! E considero que ter dúvidas não é sinónimo de insegurança, ou gosto de pensar que não... Porém, se ter dúvidas for, de facto, sinónimo de insegurança, prefiro-a à arrogância de tudo saber.

A História é a prova de que as dúvidas sempre levaram o Homem muito mais longe do que os dogmas, se assim não fosse, ainda estaríamos a condenar Galileu e ridicularizar a teoria do heliocentrismo.

Posto isto, se algum dia deixar de ter dúvidas e passar a ter apenas certezas absolutas, será o dia em que apenas existirei fisicamente e morrerei intelectualmente.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quase-qualquer-coisa


O ser humano é de tal forma complexo que, creio, se todas as ciências se unirem, não conseguirão desvendar totalmente os segredos desta espécie.

E como ser complexo que é, tece teias sociais igualmente complexas. Sem me alongar demasiado sobre esta temática, até porque não sou especialista e tenho coisas mais interessantes para fazer, apenas me vou debruçar (salvo seja) sobre os "quase-qualquer-coisa".

Quem são os "quase-qualquer-coisa"? 

São os "quase-namorados", os "quase-amigos", os "quase-familiares" (com ou sem laços de sangue), etc..

Gosto desta subespécie. Têm o seu quê de enigmático... São aqueles que, por artes mágicas, aparecem e desaparecem sem percebermos muito bem como e porquê.

Gostam de nos colocar em banho-maria à espera do momento em que deixam de ser "quase" e passam a ser efectivos. Por norma, têm sempre uma explicação lógica para as suas ausências e, como tal, o nosso dever é de os receber de braços abertos e com a gratidão de um chocolate resgatado de uma vitrina ao sol. Caso não se sintam acolhidos como pensam que devem ser, fazem questão de deixar bem claro que estamos a cometer uma falha grave e dificilmente nos perdoam. São, portanto, uma subespécie com um ego hiper desenvolvido e com um défice de capacidade de socialização que os impossibilita de se colocarem no lugar do outro. "Eu, me, mim, migo" são os únicos pronomes que utilizam.

Quando o "eu, me, mim, migo" sente que está na altura, reaparece com todo o seu esplendor e sempre com uma história bonita para contar. Talvez fosse interessante compilar estas histórias num volume para facilitar a tarefa de escolher a que mais se adequada a cada situação... Tenho até uma sugestão para o título deste compêndio: "Desculpas esfarrapadas". Lindo! Todo o "quase-namorado", "quase-amigo" ou "quase-familiar" digno desse nome deveria possuir um exemplar.

Já estou a imaginar...

"Quase-namorado": - Ahh e tal... eu era para ter aparecido no dia combinado para oficializarmos o namoro mas houve uma inundação lá no trabalho e, curiosamente, a minha cadeira foi apanhada na corrente e eu não tive hipótese de sair. Fiz duas circum-navegações e, numa delas, fui picado por uma raia gigante, estive a recuperar um ano numa tribo da Amazónia, regressei a nado, finalmente, cheguei! Não estás feliz por me ver?

"Quase-amigo": - Ahh e tal... eu quis muito ir visitar-te quando estiveste doente mas fui ao Egipto e fui apanhado numa tempestade de areia, fiquei soterrado e tive de escavar um túnel com o único objecto que tinha no bolso, um palito de madeira. Escavei durante um ano, dois meses, quinze dias e dezassete horas. Quando me libertei da areia fui atropelado por uma cáfila em transumância e fiquei inconsciente durante mais oito meses. Quando acordei, o meu único pensamento foi rever-te, meu querido amigo! Não estás feliz por me ver?

"Quase-familiar": - Ahh e tal... não sei o que se passou com o meu telemóvel, penso que foi invadido por micro-extraterrestres que se alimentaram dos meus contactos e fiquei sem o teu número. Estas criaturas também me provocaram uma amnésia de tal forma grave que, durante dois anos, nem me lembrei que existias. Esqueci-me completamente do teu aniversário, do Natal e todas as épocas festivas, de querer saber se estarias bem de saúde e de todos os momentos que passámos juntos quando éramos crianças. Fui tantas vezes à tua terra e nunca me lembrei de te visitar! Mas na semana passada, tropecei numa pedra, recuperei toda a memória e lembrei-me da tua morada. Por isso aqui estou para te convidar para o meu casamento! Não estás feliz por me ver?

Estes "quase-qualquer-coisa" quase me divertem mas a idade é tramada e, estando eu nos "entas", quase não tenho paciência... quase... 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

13.11.2010 15.20


Nunca gostei de datas, isto é, de datas impostas, em que é suposto fazermos ou comemorarmos algo. A grande excepção será o Natal e os aniversários. Não gosto que determinados dias no calendário ditem como devo agir ou os outros devem agir comigo. Fui habituada desde criança a não valorizar dia da mãe e dia do pai porque dia da mãe e dia do pai são 365 dias nos anos normais e 366 nos anos bissextos. Não gosto do dia de São Valentim e dos coraçõezinhos e cupidinhos e ursinhos fofinhos e florzinhas e bombonzinhos, dia dos namorados tem de acontecer todos os dias e ser comemorado todos os dias, porque apetece, não por imposição. Até a passagem de ano não é um dia que me agrade totalmente... prefiro não ter planos e deixar a noite fluir de acordo com o momento do que ter de estar num restaurante, em turnos, a pagar 300 por cento do que devia, a engolir passas empurradas por champanhe só porque é suposto divertir-me e cumprir os rituais.

Mas há datas que marcam. Há datas que ficam irremediavelmente associadas a acontecimentos bons e outras a acontecimentos maus. E é assim que tem de ser... acontecimentos bons para recordar e maus para me fazerem crescer.

Dia 13 de Novembro de 2010. Apenas uma data mais no calendário. Passado. Passado no tempo mas bem presente na minha memória. Um ponto de não retorno. Hora 15.20. Às 15.21 já não era a mesma. Ao contrário da entrada nos "entas" que não surtiu qualquer efeito, este minuto do dia 13 de Novembro de 2010 mudou-me para sempre. Mudou a minha vida e a minha forma de ver o mundo. Aquele minuto obrigou-me a ir buscar forças onde eu não sabia existirem. Fez-me pensar muitas vezes em mudar de rumo, optar pelo mais fácil. Não mudei de rumo. Foi uma escolha difícil. Não me arrependo. 

Aquele minuto mudou-me! Apesar de ter duvidado muitas vezes da minha capacidade de superar o que aquele minuto me trouxe, hoje sei que estou mais forte. 

E é assim que vivo mais um dia do calendário, com a memória daquele dia.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Eu e os livros


Os livros sempre fizeram parte da minha vida. Não sabia juntar duas letras e já convivia com livros. A estante da casa dos meus pais sempre teve livros, muitos livros, e eu sempre fui estimulada a folheá-los e a estimá-los como algo de precioso. Recordo-me de ler livros como "A Costa dos Murmúrios", "Crónica dos Bons Malandros", "O Delfim", etc., numa idade em que não tinha maturidade para os compreender totalmente.

Excepto alguns exemplares que, por sugestão dos meus pais e para que apreciasse a importância da partilha, ofereci a uma biblioteca infantil, conservo os meus livros de infância. Do mesmo modo, conservo todos os livros dos teen, dos intas e dos entas. Confesso o meu lado egoísta no que diz respeito a esta matéria. Não gosto de emprestar livros, assim como não gosto de pedir emprestado. Para mim, os livros estão ao nível do que se diz para os cônjuges e para os automóveis... não se emprestam nem se pedem emprestados. As poucas vezes que emprestei livros fi-lo porque sabia que iriam regressar às minhas mãos tal e qual como tinham sido entregues. Bem sei que é uma forma de poupar dinheiro e espaço mas o lado emocional tem pesado mais do que o material...

Adoro perder a noção do tempo numa livraria. Há algo mais estimulante do que uma estante repleta de novos exemplares à espera de serem descobertos? Gosto de lhes mexer, ver a capa, a sobrecapa e a contracapa, ler a sinopse, sentir-lhes o cheiro. Gosto de sentir que há um sem fim de visões do mundo a conhecer. E como detesto ser interrompida e arrastada deste estado zen por um funcionário solícito com o seu "bom dia, posso ajudar?" (como quem diz: despacha lá isso que eu preciso de facturar). 

Ler faz bem... está provado cientificamente! Estimula o cérebro e previne doenças. Serve de calmante ou excitante, consoante o tema. E, tal como nas farmácias, há temas para todos os males/gostos. Se me quiserem matar de tédio, ofereçam-me livros de auto-ajuda, romances lamechas e cor-de-rosa do prefácio ao posfácio ou livros em sagas sobre vampiros ou delírios sexuais de donas de casa, que servem apenas como minas de dinheiro. Se me quiserem ver feliz, ofereçam-me livros com uma boa dose de realidade, sejam totalmente ficcionais ou baseados em factos reais, mas que sejam credíveis, bem estruturados e bem escritos. Não há nada pior do que um escritor que toma o seu leitor por garantido e que não se dedica de corpo e alma à escrita. Não é possível ludibriar um leitor.

Ainda não me converti às novas tecnologias no que diz respeito à leitura, talvez o faça um dia, pelo meio ambiente e pela escassez de espaço na minha biblioteca pessoal, mas creio que sentirei a falta do toque do papel e da sensação boa de virar a página. E como farei quando terminar o livro? Tenho por hábito, quando termino um livro, ficar uns momentos com ele no regaço, a pensar sobre o que aquela forma de ver o mundo acrescentou à minha forma de ver o mundo e a contemplar mais uma vez a capa, a sobrecapa e a contracapa. Com um livro electrónico conseguirei manter este hábito? Talvez não... mas a vida é assim, evolução e mudança de hábitos... 

Há, porém, um hábito que não pretendo mudar, o da leitura. Sempre esteve presente na minha vida, faz parte de mim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Da confiança


Esta coisa dos "entas" faz com que dê importância a determinados assuntos que, há uns anos, nem me passavam pela cabeça. Digo que é dos "entas" porque não ando a ler filosofia nem livros de auto-ajuda e também não sou muito dada a leitura de obras ou grandes frases lamechas sobre a vida e afins.

Bom, voltando ao assunto, ultimamente dou por mim a pensar que na minha vida, cada vez mais, a confiança é o elemento mais precioso. Muitos poderão advogar a causa da saúde ou a causa do amor, por exemplo... Para mim é a confiança... Não a confiança cega que gera ignorância, passividade, ingenuidade, mas a confiança que dá garantias, ânimo e alguma segurança. 

Considero importante poder confiar num médico quando estou doente e, principalmente de sentir que posso confiar. 

Seria bom poder confiar nos políticos do meu país e no rumo que vão traçando para todos nós, mas não posso... lá está, se confiasse seria confiança cega... A falta de confiança na política gera incerteza em relação ao futuro económico, social e até cultural. E como é possível trabalhar, desenvolver projectos, viver num país que não tem confiança nos seus dirigentes máximos?

Do mesmo modo, seria bom poder ter confiança na justiça deste país e nas forças de segurança mas, com tanto ladrão que vai para a prisão por roubar um pão e com tanto doutor que vai para uma ilha paradisíaca por roubar um milhão (ou muitos) e ainda recebe uma condecoração, não há a mínima possibilidade de confiar...

E como é bom ter alguém em que é possível confiar, seja um chefe, um subalterno ou um colega; um amigo ou um familiar. Ter a noção de que aquela pessoa está lá nos momentos bons e maus e que dá a palmadinha nas costas quando é merecida, mas também dá o estalo na cara quando é preciso. 

A confiança... 

Elemento fundamental e que tem tanto de forte como de frágil. A confiança une e a falta de confiança desune. A confiança segura pela mão e a falta de confiança empurra para o chão. A confiança é difícil de conquistar e fácil de perder e, uma vez perdida, tão difícil de recuperar... Recuperar a confiança perdida dá trabalho, requer esforço, é um processo com avanços e recuos, que exige dedicação e vontade e que, no final, não volta a ser como era.

Como se devolve a confiança ao doente mal diagnosticado, ao eleitor desiludido, ao empresário falido e ao empregado despedido, ao cidadão injustiçado, ao amigo ou familiar esquecido, à criança maltratada, ao cônjuge traído...?

A confiança... para mim o pilar de tudo... não a confiança cega mas a confiança confiança que une, a confiança que valoriza, que dá esperança e amparo, que permite acreditar em si próprio e avançar apesar dos medos, a confiança...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Samhain, All Hallows Eve, Halloween


Como é que um ritual Celta, pagão, que celebrava o fim do Verão e o início do Inverno, se transformou neste Carnaval fora de época tão lucrativo para os bazares chineses? Terá sido do fumo das fogueiras ou hidromel fora de prazo? Não sei... Não me parece... 

Dizem que "halloween" significa desambiguação. Será que se comprar uma fatiota de poliéster, tingida com tintas manhosas, e esborratar a cara com lápis preto e cenas pirosas vermelhas a imitar sangue, amanhã tudo o que era ambíguo vai ser claro como a água? Ou será que, se os membros do nosso governo se mascararem de jack-o-lantern (o que até teria a sua graça, talvez assim se fizesse luz), as políticas e as leis vão tornar-se justas e igualitárias? Não sei...  Não me parece...

Não é dos "entas", é de mim, não gosto desta fantochada à americana. Não gosto de festas e jantares impostos pelo calendário. Gosto de festas e de jantares propostos pela amizade em qualquer dia do ano. Não gosto de certos abusos que se cometem porque acham que é divertido e que tenho de acatar tudo se não quero ser apelidada de careta. Gosto de caretos. São genuínos, tradicionais... mas esses pertencem a outros carnavais... Não gosto de festejar esta data mas gosto de ver gente divertida a festejá-la. As pessoas precisam de algo que as anime! Se são felizes com as suas fatiotas de poliéster, deixá-las ser...

E, finalmente, não compreendo a necessidade que certas pessoas têm de se mascarar de bruxas, quando passam um ano inteiro a massacrar a vida a outros. Pelo menos, uma vez no ano, despem o seus trajes de santinhas e revelam-se... ou não... porque lá diz o povo: "com a verdade me enganas"...

Talvez devêssemos todos ter os nossos momentos em que pegávamos nas nossas vassouras e desatávamos a massacrar umas alminhas... bem, provavelmente até temos, embora uns abusem mais dos vôos... E eu, tal como os espanhóis, não acredito em bruxas mas que as há, há...

Assim, e antes que este texto pareça fruto do hidromel fora de prazo, feliz dia das bruxas! 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Decisões


A vida é feita de decisões. Quantos caminhos diferentes poderia ter percorrido se no momento a ou b tivesse tomado decisões distintas? E de que adianta pensar nisso? Nada... pura perda de tempo...

Todos devíamos nascer formatados para fazer apenas escolhas certas mas, assim, a vida seria uma enorme monotonia de tão previsível! Como poderíamos crescer e amadurecer sem erros cometidos e consequências?

Todos devíamos nascer formatados para jamais nos deixarmos influenciar por outros ou para sentirmos necessidade de pedir conselhos. Mas, se assim fosse, como haveria partilha de ideias e de formas de ver o mundo? Cada um faria apenas o que lhe apetecesse, estivesse certo ou errado, e  o mundo seria dominado pelo individualismo.

Assim, viver é pedir conselhos, ser influenciado, decidir, acertar, errar, experimentar o sucesso ou o insucesso que advém das decisões tomadas. É também saber decidir contra os nossos instintos e impulsos quando sabemos que é assim que tem de ser e é habituarmo-nos aos novos caminhos que sejamos impelidos a percorrer.

E é por isso que me vejo num novo caminho e, ainda não habituada, pergunto: onde estava com a cabeça quando deixei que a minha cabeleireira me cortasse 15 cm de cabelo?!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Tec tec tec tecnologia


Tendo eu nascido no outro milénio, vivi parte da minha vida num mundo onde, para falarmos com alguém que estava distante, tínhamos de usar um objecto chamado telefone; onde, para procurarmos determinada informação tínhamos de ir a bibliotecas e consultar enciclopédias; onde, para enviarmos mensagens aos amigos, tínhamos de escrever cartas, enviar postais ou telegramas. 

Hoje, graças às maravilhas da tecnologia, temos tudo na palma da nossa mão e à distância de um clique. 

Não me queixo... pelo contrário! Gosto de tudo o que é prático e facilita o dia-a-dia e gosto de telemóveis, da internet e de smartphones...

E há quem goste tanto, mas tanto, que é incapaz de se separar fisicamente do seu precioso veículo de ligação ao mundo.

Tudo isto para dizer que, esta coisa dos "entas" e de criatura que viveu nas duas eras (idade das trevas e idade da tecnologia portátil), faz com que não entenda certos comportamentos. Não que as pessoas estejam erradas, eu é que não entendo... são coisas de gente jurássica...

Bom, indo directa ao ponto... no meu local de trabalho, não sendo um serviço de atendimento ao público, tenho de lidar com clientes, com as suas formas de ver o mundo, as suas dúvidas, as suas certezas e é preciso tacto, bom senso e, por vezes, uma boa dose de paciência para que as relações profissionais corram sempre da melhor forma possível.

Há uma pessoa, em particular, que se destaca. Personalidade forte, muitas certezas e nenhumas dúvidas, imbatível em sabedoria e eficiência, voz possante em consonância com o porte físico, muita fala e pouca audição. Como lidar com uma pessoa assim? Deixá-la falar, argumentar com as suas certezas absolutas e em voz bem poderosa e, numa das poucas pausas que faz para respirar, tentar contra-argumentar... Tem sido esta a táctica e tem resultado... Afinal há que saber ler as pessoas e perceber o que as move. A esta move-a um ego maior que o Everest. No seu espelho vê reflectida a imagem do exemplo do profissionalismo e da sabedoria. Às tantas, o espelho até está correcto... mas faz-me confusão que, uma pessoa tão profissional e cheia de certezas, no exercício das suas funções profissionais e à frente de outras pessoas, pegue no seu precioso veículo de ligação ao mundo e desate a jogar e a emitir sons irritantes (tec tec tec), a enviar e receber sms (com os seus toques espectaculares ióóónnnniiiipimpimpim) e a consultar as redes sociais.

São as maravilhas da evolução da sociedade, do profissionalismo e da tec tec tec tecnologia...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Saindo da caixa


Quando era adolescente sonhava com o dia em que faria 18 anos. Na minha cabeça inocente e influenciada pela explosão hormonal típica dessa idade, leia-se fase da parvalheira, os 18 anos representavam a passagem para a idade adulta e para esse vasto, inexplorado e maravilhoso mundo da independência. Tinha grandes planos... "quando fizer 18 anos vou sair à noite sempre que me apetecer"... sim, estes eram os meus grandes planos e, sim, com essa idade, à noite, eu não ia a parte alguma que não se resumisse a casa da colega de escola que morava duas portas ao lado. Não por ter pais demasiado severos, nada disso, eram outros tempos, outras formas de ver o mundo.

Quando cheguei aos 18 e me vi sozinha, numa cidade estranha, numa casa que fui fazendo minha e onde tinha de conviver com outras pessoas que não a família, com obrigações a cumprir e com um orçamento mensal para gerir, concluí que, afinal, esta história dos 18 não tinha assim tanta piada e que o tal mundo fantástico que me aguardava tinha as suas regras e obrigações, deixando pouco tempo para as distracções.

Com o tempo, fui aprendendo que a liberdade é algo mais sério... não é poder fazer sempre o que quero mas ter o poder de escolher fazer ou não fazer; que ser feliz não é esperar que a felicidade me caia no colo mas saber reconhecer que a mesma é feita de pequenos momentos felizes; que a vida nem sempre, ou nunca, acontece como nos meus planos mas que os desafios e os contratempos são lições preciosas que nenhum livro poderia jamais ensinar.

Com o tempo, também fui aprendendo que a rotina dá conforto, dá uma sensação de controlo, de previsibilidade, mas também vai corroendo, como a água mole em pedra dura. E, agora nos "entas", é esta a minha nova luta: impedir que a rotina seja dona e senhora do meu destino.

É por isso que, eu que detesto chuva, há uns meses assisti a um concerto debaixo de uma chuva torrencial, fiquei molhada até aos ossos, fiz 180 km de carro encharcada e com um sorriso parvo no rosto. É por isso que uma noite, já de pijama, aceitei um convite de amigos para sair e, sem planos, passámos uma noite divertida. É por isso que me encontram, por vezes, dentro do carro à beira mar com um livro na mão, quando podia estar confortavelmente sentada no meu sofá.

É bom ter a noção de que a caixa se pode abrir e que lá fora a vida acontece, de forma diferente e imprevisível, mas que está lá à minha espera. Do mesmo modo, é bom ter a noção de que a caixa está lá, para os momentos em que é necessário regressar ao previsível e à rotina.

Importante é ter presente que um dia tudo acaba e que, dentro do que me for possível, vou aproveitar o que os dois lados da caixa têm para me oferecer, mesmo que aos outros pareça estranho.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Volta Bridget que estás perdoada!


Ilustração de Vivienne Flesher


Nos últimos dias tenho visto e ouvido vários comentários ao visual da actriz Renée Zellwegger que, na minha modesta opinião, são o espelho da nossa sociedade.

Todos os dias somos bombardeados com imagens de corpos que se convencionou serem o ideal de beleza: sem uma ponta de gordura ou celulite, músculos torneados, sem sinal de estrias, nariz direitinho e lábios carnudos e mais um sem fim de pormenores maravilhosos e que só existem por milagres photoshopianos.

Como em tudo na vida, o que é com conta, peso e medida é bom... a cirurgia estética e as técnicas na mesma área podem ser muito benéficas nomeadamente em casos de pessoas que sofreram acidentes ou doenças ou, ainda, que lidam com algum tipo de incapacidade provocada por malformações ou deformações.

Se há pessoas que decidem mudar algo na sua aparência recorrendo a este tipo de técnicas estão no direito delas. Quem são os outros para criticar se A ou B decide colocar uns implantes mamários só porque lhe apetece? Acidentes acontecem todos os dias e nada como uns bons air-bags para amortecer a pancada... Ou para criticar C ou D que decide retirar umas gordurinhas extra imaginárias do abdómen? Quem gosta de carregar aquela massa amarela e viscosa por todo o lado?

Deixem lá a senhora em paz com as mudanças de visual que ela entender que deve fazer! É claro que é estranho que a Bridget Jones não seja mais a mesma mas, o facto, é que a Bridget Jones não existe. É ficcional. Porém a Renée é de carne e osso e está sujeita à pressão do meio em que vive e trabalha. Não deve ser fácil! Hollywood não é amigo das mulheres nos "entas", daí que muitas delas entrem em parafuso ainda nos "intas"... A excepção será, talvez, Meryl Streep mas essa senhora, até a ressonar no seu quarto à noite o faz em grande estilo, não há termo de comparação...

São inúmeros os homens, actores e cantores, que se submeteram a cirurgias plásticas e, tirando os casos que todos conhecemos de um actor e de um cantor que ficaram irreconheciveis, ninguém os massacra com comentários e opiniões.

Por isso, como diz a cantiga, "oh gente da minha terra", ide tratar de assuntos sérios que já não há pachorra para este!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Aprendendo a largar o remo


Com a entrada no pseudo vórtice negro dos "entas" houve algo que mudou em mim... Sim, também tenho uma ou outra ruga a mais mas não é a isso a que me refiro...

Diz-se que as pessoas idosas regressam à infância e, em certo ponto, se tornam um pouco egoístas. Não sei se é assim, ou se são os anos que somam e os poucos que lhes restam que os fazem virar-se mais para si e para as suas necessidades. Não sei... nem sei se assim é de facto, ou se se trata de um lugar comum criado para desculpar a frustração dos mais novos por não conseguirem facilmente levar a que um idoso obedeça às suas instruções.

Embora não sendo idosa, caso não seja atropelada amanhã por um rolo compressor, a verdade é que os ponteiros do relógio vão rodando e rodando nesse sentido. É indiscutível e é inevitável e não adianta esperar que a pilha acabe porque esta ainda é melhor do que as que põem coelhinhos a tocar tambor e a dançar o vira do Minho. Assim, talvez seja o meu subconsciente a dar sinais, ou a vida a ensinar-me que há coisas e pessoas que, simplesmente, não valem o esforço. E é aqui que está o cerne da questão, ou como diriam os políticos, "a questão essencial".

Sempre fui a "gaja porreira", amiga e disponível. Coloquei tantas e tantas vezes os outros em primeiro lugar e, quando não recebia o mesmo tratamento, o que sucedeu inúmeras vezes, encontrava sempre uma desculpa. Invariavelmente, relevava tudo e continuava a fazer tudo igual...

Com os "entas", embora não consiga apontar o momento certo, creio que foi um processo que levou o seu tempo, deixei de correr atrás das pessoas. Ainda estou para descobrir se é bom ou mau mas, a experiência tem-me mostrado que é bom. Penso que me valorizo mais, ou então será apenas um mecanismo de defesa próprio da caminhada para a velhice... mas gosto de pensar que aprendi a dar mais valor a mim mesma.

Deixei de ter paciência e disponibilidade para as pessoas que só me telefonam quando precisam e que nunca se lembram do meu aniversário, do Natal, ou num dia qualquer do calendário de perguntar "como estás?". Pessoas que me convidam para casamentos e que durante anos e anos não se lembram que eu existo. "Amigos" que não demonstram o mínimo interesse. Para mim, as relações humanas são como um barco a remos... se só um dos remos se move, o barco anda em círculo e não vai a parte alguma. E eu estou cansada de ser o remo em movimento.

Felizmente, tenho muitas pessoas que valem todas as remadas e mais alguma e que correspondem da mesma forma. O copo está a meio e eu gosto de pensar que é bom lutar pelo que vale a pena e apreciar a metade cheia.

O tempo urge e há que dedicá-lo a mim e a quem verdadeiramente merece.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Outono? Ainda não...


Se entrar nos "entas" fosse o filme de terror que certas pessoas fizeram, diria que estava agora no Outono da vida.

A altura em que as folhas se tornam douradas e caem das árvores, ou seja, a altura em que começa a decadência que, mais tarde dará lugar ao Inverno, onde tudo fica imóvel hirto e desprovido de vida. Até na música se exalta a juventude: "a Primavera da vida é bonita de viver"... como diz o Rui Veloso.

Alto e pára o baile!

Então, estou eu aqui, ainda com alguma energia, com um corpo que vai correspondendo ao que é expectável em termos de mobilidade e funções vitais, com as suas mazelas, é certo, mas que corresponde, e afinal devia estar a procurar pantufas nas lojas de artigos de ortopedia?

Mas por que decreto devia eu sentir-me no Outono se é a estação do ano mais estranha que existe? Fica ali naquela coisa... calor, frio, calor, frio, chuva, sol, chuva, sol... Nesta altura as pessoas ficam tão baralhadas ao ponto de fazer sentido andar de vestido de alças e galochas ou de casaco de fazenda e sandálias! Há lá alguma época do ano mais indecisa do que esta? A Primavera também alterna mas alimenta a esperança em dias melhores! O Outono não... E, para cúmulo, ainda se verifica aquele fenómeno em que os dias parecem ser enfiados numa máquina de lavar roupa, num programa a 90º, e encolhem a olhos vistos! Não há condições! 

Dir-me-ão os defensores do Outono que nesta estação do ano as árvores ganham outra beleza ao pintarem-se de ocre, que as cozinhas se enchem de marmelada e doce de abóbora, que as bancas dos mercados ficam repletas de uvas, romãs e diospiros e que as ruas cheiram a castanha assada...  Meus amigos, fiquem lá com os vossos quadros mentais estilo natureza morta e deixem-me com as cerejas, os morangos, os pêssegos, a limonada e o sumo de laranja à beira-mar, as flores e as folhas verdes, o céu azul e as andorinhas...

Passar pelo Outono é inevitável...  faz parte do ciclo... mas agora não, é demasiado cedo...

Há ainda tanta Primavera e tanto Verão em mim...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Peixe, pescadores, peixeiras e peixeiradas


Sendo eu natural de uma terra banhada pelo mar, tenho um enorme respeito pelas pessoas que fazem dele a sua vida. 

Admiro os homens que se lançam ao mar a horas em que o comum dos mortais dorme o seu sono reparador, que arriscam muitas vezes a vida em troco de uns cabazes de peixe e uns tostões no bolso e que, mesmo vivendo uma vida difícil, não a trocariam por outra alguma. 

Gosto das peixeiras, da sua genuinidade e vitalidade. Lembro-me de, em criança, ser muitas vezes acordada pelos pregões "Olhá sardinha frescaaa, vivinha da costaaa!", "Olhó chicharro fresquinhooo!" e ficar a pensar como conseguiam levar aquelas cestas de peixe enormes à cabeça sem perderem o equilíbrio. Hoje já não há pregões mas elas continuam na sua labuta, embora com outros meios e noutros locais.

Gosto de peixe, gosto de pescadores, gosto de peixeiras mas detesto peixeiradas! Creio até que este termo se torna injusto. Mas o facto é que tenho alergia a peixeiradas, a trocas de palavras menos próprias e em tom desrespeitoso.

Isto de estar nos "entas", aliado à educação que os meus pais me deram e que eu prezo muito, faz com que não me envolva em situações do género. Infelizmente, numa outra encarnação devo ter sido uma pessoa terrível e estou a pagar nesta por todos os males causados... 

Há momentos, tive de me deslocar a uma estação dos CTT. Entrei, dirigi-me à máquina das senhas, verifiquei que estavam um senhor de alguma idade e uma mulher jovem à minha frente e que trocavam umas palavras. Como não sou pessoa de escutar a conversa alheia, aguardei serenamente que o tête-à-tête terminasse e, quando se afastaram, tirei a minha senha. A mulher jovem saiu,  o senhor ficou na fila e eu coloquei-me atrás a aguardar. Os números de senha sucederam-se até chegar o meu. Quando me dirigia ao balcão surge a mulher jovem em passo apressado e, dirigindo-se a mim num tom que não admito nem ao padre da minha paróquia, "Onde é que a senhora pensa que vai? Agora é a minha vez! Isso é que era bom! Chega depois de mim e quer passar à frente!". Eu fiquei ali, num misto de estupefacção e de respirações e contagens até 10, mostrei-lhe o número da minha senha que correspondia ao que o placard exibia. Não satisfeita, e alto e em bom som, "Não quero saber! Agora sou eu e mais nada! Olha a esperta! Queria ir à minha frente!".

Ora como eu gosto de peixe, pescadores e peixeiras mas fico cheia de urticária com peixeiradas, apenas sorri e respondi "Não seja por isso, faça favor..." e indiquei-lhe o balcão. 

Todas as almas presentes naquele local perceberam o que se passou, incluindo a senhora que estava atrás de mim e que tinha a senha com o número imediatamente a seguir. A mulher jovem saiu do edifício e não tirou a senha, voltou passado pouco tempo e já eu e a outra pessoa estávamos na fila.

Pensando bem, às tantas estava coberta de razão... eu devia ter adivinhado que ela ia voltar e devia ter ficado a aguardar junto da máquina das senhas que sua excelência tratasse lá da sua vidinha até decidir voltar e reclamar a sua preciosa vez.

É assim a vida... viva a pachorra dos "entas" e viva a boa educação!

Nota: A imagem é da autoria de um pintor que muito admiro: José Penicheiro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mulher de "andas"


Olhar para o espelho nos "entas", por vezes, dá azo a pensamentos profundos e introspectivos mas nada de ilusões... gaja que é gaja continua gaja mesmo depois do ponto de não retorno!

Algo que descobri depois da minha entrada no vórtice negro foi que o meu espelho devolve uma imagem que não me desagrada totalmente... Convém fazer um pequeno parêntesis para esclarecer que não me refiro a introspecção e essas cenas filosóficas e psico-analíticas, refiro-me mesmo a cenas fúteis como o aspecto físico. Bom, não sei se esta ideia deriva de algum conformismo/resignação porque, uma vez que nasci com esta "embalagem", o melhor será habituar-me a ela, ou se são os anos vividos a criar uma capa que remete todas as inseguranças antigas para o esquecimento. A verdade, é que não me incomoda se a perna é torta ou direita, o braço é magro ou gordo... Descobri nos "entas" que sou vaidosa (q.b.) e que o sou, sobretudo, para mim.

Ora, como elemento do sexo feminino, partilho a mesma paixão que a esmagadora maioria das mulheres tem por sapatos. Qual é a mulher que não se perde a observar cuidadosamente uma montra de sapataria repleta de exemplares reluzentes? Ali estão eles, tão bonitos, solitários, carentes a ansiar por um par de pés...

Basicamente a minha paixão por sapatos cessa aí, uma vez que, assim que entro na sapataria, todo o mundo de fantasia cai por terra e torna-se num pesadelo. 

A moda evolui cada vez mais rapidamente e, em matéria de calçado feminino, a imaginação dos criadores tem voado alto... muito alto... tão alto ao ponto de hoje termos sapatos que mais parecem andas e que exigem que as mulheres se tornem equilibristas/saltimbancos/artistas de circo e afins! Como se não bastassem saltos que se assemelham espadas de esgrima, ainda lhes juntam plataformas dignas de atravessar qualquer cheia do Ribatejo!

Amigos criadores e fabricantes, não há condições! Tenham dó! Os sapatos podem ser lindos mas não se consegue andar com eles! Sendo assim, qual o sentido? Podem dizer... ah e tal... há muitas mulheres que andam... É um facto! Ficam lindas! Altas, elegantes, com pernas torneadas e alongadas, com dores indescritíveis nos pés após 5 minutos, com joanetes e dores de costas... Como é linda a moda! Como é bom caminhar nos passeios esburacados e com calçada à portuguesa escorregadia, entrar e sair dos transportes públicos, conduzir e sentir o salto a enrolar-se nos tapetes do carro. Há alguma coisa mais prática?

E nos casamentos? Ali estão elas todas janotas, no alto das suas plataformas de 10 cm e saltos de 25! Ninfas impecavelmente vestidas, penteadas e maquilhadas, de clutch numa mão, croquete na outra e salto completamente enterrado na relva da Quinta Quem-viu-uma-viu-todas. Como vão elegantes com os seus belos sapatos que, assim que tiram a foto da praxe, trocam pelas sandálias rasas porque já não há quem aguente a sola do pé e o joanete a latejar...

E nas discotecas? Lá estão elas, na sua dança sensual tipo "tuna", que consiste em abanar a anca da esquerda para a direita, com o cuidado de não sair do mesmo lugar, levantando apenas um dos pés à vez para aliviar a dor e porque aquela vaca que está sentada no único banco de toda a discoteca não há meio de arredar pé! E como é bonito observá-las à saída, com os seus preciosos exemplares na mão, enquanto caminham descalças pela rua ou calçadas mas completamente tortas, quase sem conseguir dar passo e de rosto tolhido pela dor...

Como é bom ser uma mulher elegante... Sim, porque se convencionou que mulher elegante anda de salto alto... bem alto,.. até para ir do quarto ao wc e voltar... como nos filmes e nos anúncios da TV...

Voltando ao pesadelo das sapatarias, mulheres como eu, que adoram sapatos mas não apreciam "andas", têm a vida dificultada porque os criadores de moda e os fabricantes de calçado parecem ter esquecido que é possível fazer sapatos elegantes com saltos médios e rasos. Sendo eu uma mulher com alguma altura, se comprar umas "andas" de 10 cm de plataforma e 20 de salto, vou ter de passar a ter um cuidado extremo ao atravessar portas, não vá bater com a cabeça; se optar por rasos as opções resumem-se a sabrinas, sapatilhas, mocassins e sapatos geriátricos.

Não é fácil ser uma mulher vaidosa, apaixonada por sapatos e que detesta andar de "andas"!


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Copo meio vazio vs copo meio cheio

Apesar de não ter ouvido o tininini tininini da música da Twilight Zone nem ter entrado a rodopiar num buraco negro, a verdade é que os "entas" chegaram e nada havia a fazer.

Perante este facto tinha duas possibilidades: ou agarrar-me aos cabelos a chorar baba e ranho, numa cena típica de novela mexicana, ou abraçar a ideia e seguir a minha vida. Ora, como chorar baba e ranho é uma chatice, faz as pessoas ficarem todas rameladas, com papos nos olhos e com cara de Topo Gigio embriagado, decidi que seria mais sensato seguir a minha vida e, se estava a entrar na curva do declínio, mais valia fazê-lo à grande! 

Já que o copo estava a meio, de nada adiantava ficar a pensar na metade vazia... Estava na altura de olhar mais para mim e por mim, sem esquecer os outros, claro está, sobretudo aqueles que amo, mas de dar mais atenção a esta nova/velha mulher nos "entas".

Foi aí que se deu a epifania mais egocêntrica da minha vida... afinal a imagem que via reflectida no espelho já não era a daquela adolescente insegura e que revelava apenas a sua verdadeira essência a poucos, nem a jovem mulher a procurar vingar profissionalmente e provar o seu valor num meio ainda marcadamente masculino. Era uma versão refinada das duas mas sem a ingenuidade nem as prioridades profissionais. Ali estava o reflexo de uma pessoa com outra ambição... a de aproveitar da melhor forma possível o que resta no copo!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O dia X




Lembro-me de, em miúda, lá por volta de mil novecentos e... cooooffff... 'tenta e poucos, adorar os meus aniversários. Eu, a campeã da ronha matinal, era capaz de me levantar ainda antes das galinhas e andar aos pulos pela casa fora, tal era a excitação. 

Normalmente nestes dias, a casa ganhava um cheiro bom a bolo que eu fazia sempre questão de provar "discretamente" quando não era suposto fazê-lo. Creio que, por essa altura, cheguei a desenvolver uma técnica apurada de prova à prova de prova, isto é, metia a unha no bolo e retirava uma pequena amostra para análise e o bolo, à vista desarmada, parecia imaculado. Alguém tinha de servir de cobaia, não era? Não fossem os convidados não gostar do bolo ou, pior, apanharem uma intoxicação... Como eu era já uma criatura preocupada e dedicada...

Bom, a verdade é que a minha mãe, cozinheira de mão cheia, era a verdadeira escrava e preparava festas dignas do jet set internacional para dezenas de índios de palmo e meio... sim... dezenas... porque gaja que é gaja, mesmo sendo mini gaja, tem de garantir animação e prendas...

Com a passagem dos anos, os aniversários foram perdendo o seu encanto. Não porque me fizesse confusão ficar mais velha, mas porque simplesmente não me apetecia festejar. Tive inúmeras festas  e, curiosamente, um dos aniversários que melhor recordo foi um em que umas colegas de secundário, no recreio, foram ao bar e compraram uma fatia de torta, espetaram-lhe um fósforo e me cantaram os parabéns mesmo ali. É incrível como os pequenos gestos são os que maior significado têm...

Nas vésperas do dia X pensei que, já que ia entrar nos terríveis "entas", o tal vórtice sugador de juventude, porque não fazer uma festa? Já que era para começar o declínio, que fosse em grande estilo... Ora bem, convém esclarecer que "grande estilo", para quem não comemora aniversários, corresponde a qualquer coisa como "reunir a família e amigos mais próximos e fazer um lanche".

Chegou então o dia, o ponto de não retorno. Curiosamente, às 00h01m do dia X sentia exactamente  o mesmo que no dia X-1 às 23h59m! Oh Diabo! Afinal não era suposto ouvir a música da "Twilight Zone" e rodopiar como se não houvesse amanhã, enquanto era sugada por um enorme buraco negro? Mau mau Maria que me andaram a enganar! Mas pronto, não fosse a coisa funcionar com retardador, o melhor era aproveitar e seguir como se nada fosse.

E assim foi, cheguei aos "entas", embora sem prova "discreta" de bolo, foi em grande estilo e muito feliz,  com a família e os amigos comigo e ainda com alguma juventude para gastar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ponto de não retorno



Ponto de não retorno... 

Todos temos a experiência de ouvir determinados comentários, leia-se chavões, em certas alturas da vida e eu não sou excepção.

Passei por todas as fases dos famosos bitaites, "já andas na escola?", "já namoras?", "já arranjaste emprego?", "quando casas?", "e bebés?"... até que cheguei à pérola: "quando entrares nos entas já não sais de lá...".

Pára tudo!

Então os "entas" são assim uma espécie de buraco negro que suga tudo à sua volta? No dia X-1 às 23h59m sou jovem, com planos, vida, genica, saúde e alegria e no dia X às 00h01m estou com os pés para a cova... 

Tantas vezes ouvi "quando entrares nos entas já não sais de lá..." que me habituei à ideia de me despedir antecipadamente dos "deza" (ou teen) e dos "intas" e mergulhar nesse vórtice negro dos entas.

Embora tudo isto possa soar um pouco paranóico, a verdade é que me aborrecia mais ter de ouvir vezes sem conta o bitaite do que propriamente a ideia de entrar nos "entas".

E eis que chega o dia X, o dia da entrada nos "entas", o ponto de não retorno! E o que acontece?...

Veremos nos próximos capítulos...