segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Saindo da caixa


Quando era adolescente sonhava com o dia em que faria 18 anos. Na minha cabeça inocente e influenciada pela explosão hormonal típica dessa idade, leia-se fase da parvalheira, os 18 anos representavam a passagem para a idade adulta e para esse vasto, inexplorado e maravilhoso mundo da independência. Tinha grandes planos... "quando fizer 18 anos vou sair à noite sempre que me apetecer"... sim, estes eram os meus grandes planos e, sim, com essa idade, à noite, eu não ia a parte alguma que não se resumisse a casa da colega de escola que morava duas portas ao lado. Não por ter pais demasiado severos, nada disso, eram outros tempos, outras formas de ver o mundo.

Quando cheguei aos 18 e me vi sozinha, numa cidade estranha, numa casa que fui fazendo minha e onde tinha de conviver com outras pessoas que não a família, com obrigações a cumprir e com um orçamento mensal para gerir, concluí que, afinal, esta história dos 18 não tinha assim tanta piada e que o tal mundo fantástico que me aguardava tinha as suas regras e obrigações, deixando pouco tempo para as distracções.

Com o tempo, fui aprendendo que a liberdade é algo mais sério... não é poder fazer sempre o que quero mas ter o poder de escolher fazer ou não fazer; que ser feliz não é esperar que a felicidade me caia no colo mas saber reconhecer que a mesma é feita de pequenos momentos felizes; que a vida nem sempre, ou nunca, acontece como nos meus planos mas que os desafios e os contratempos são lições preciosas que nenhum livro poderia jamais ensinar.

Com o tempo, também fui aprendendo que a rotina dá conforto, dá uma sensação de controlo, de previsibilidade, mas também vai corroendo, como a água mole em pedra dura. E, agora nos "entas", é esta a minha nova luta: impedir que a rotina seja dona e senhora do meu destino.

É por isso que, eu que detesto chuva, há uns meses assisti a um concerto debaixo de uma chuva torrencial, fiquei molhada até aos ossos, fiz 180 km de carro encharcada e com um sorriso parvo no rosto. É por isso que uma noite, já de pijama, aceitei um convite de amigos para sair e, sem planos, passámos uma noite divertida. É por isso que me encontram, por vezes, dentro do carro à beira mar com um livro na mão, quando podia estar confortavelmente sentada no meu sofá.

É bom ter a noção de que a caixa se pode abrir e que lá fora a vida acontece, de forma diferente e imprevisível, mas que está lá à minha espera. Do mesmo modo, é bom ter a noção de que a caixa está lá, para os momentos em que é necessário regressar ao previsível e à rotina.

Importante é ter presente que um dia tudo acaba e que, dentro do que me for possível, vou aproveitar o que os dois lados da caixa têm para me oferecer, mesmo que aos outros pareça estranho.

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