O ser humano é de tal forma complexo que, creio, se todas as ciências se unirem, não conseguirão desvendar totalmente os segredos desta espécie.
E como ser complexo que é, tece teias sociais igualmente complexas. Sem me alongar demasiado sobre esta temática, até porque não sou especialista e tenho coisas mais interessantes para fazer, apenas me vou debruçar (salvo seja) sobre os "quase-qualquer-coisa".
Quem são os "quase-qualquer-coisa"?
São os "quase-namorados", os "quase-amigos", os "quase-familiares" (com ou sem laços de sangue), etc..
Gosto desta subespécie. Têm o seu quê de enigmático... São aqueles que, por artes mágicas, aparecem e desaparecem sem percebermos muito bem como e porquê.
Gostam de nos colocar em banho-maria à espera do momento em que deixam de ser "quase" e passam a ser efectivos. Por norma, têm sempre uma explicação lógica para as suas ausências e, como tal, o nosso dever é de os receber de braços abertos e com a gratidão de um chocolate resgatado de uma vitrina ao sol. Caso não se sintam acolhidos como pensam que devem ser, fazem questão de deixar bem claro que estamos a cometer uma falha grave e dificilmente nos perdoam. São, portanto, uma subespécie com um ego hiper desenvolvido e com um défice de capacidade de socialização que os impossibilita de se colocarem no lugar do outro. "Eu, me, mim, migo" são os únicos pronomes que utilizam.
Quando o "eu, me, mim, migo" sente que está na altura, reaparece com todo o seu esplendor e sempre com uma história bonita para contar. Talvez fosse interessante compilar estas histórias num volume para facilitar a tarefa de escolher a que mais se adequada a cada situação... Tenho até uma sugestão para o título deste compêndio: "Desculpas esfarrapadas". Lindo! Todo o "quase-namorado", "quase-amigo" ou "quase-familiar" digno desse nome deveria possuir um exemplar.
Já estou a imaginar...
"Quase-namorado": - Ahh e tal... eu era para ter aparecido no dia combinado para oficializarmos o namoro mas houve uma inundação lá no trabalho e, curiosamente, a minha cadeira foi apanhada na corrente e eu não tive hipótese de sair. Fiz duas circum-navegações e, numa delas, fui picado por uma raia gigante, estive a recuperar um ano numa tribo da Amazónia, regressei a nado, finalmente, cheguei! Não estás feliz por me ver?
"Quase-amigo": - Ahh e tal... eu quis muito ir visitar-te quando estiveste doente mas fui ao Egipto e fui apanhado numa tempestade de areia, fiquei soterrado e tive de escavar um túnel com o único objecto que tinha no bolso, um palito de madeira. Escavei durante um ano, dois meses, quinze dias e dezassete horas. Quando me libertei da areia fui atropelado por uma cáfila em transumância e fiquei inconsciente durante mais oito meses. Quando acordei, o meu único pensamento foi rever-te, meu querido amigo! Não estás feliz por me ver?
"Quase-familiar": - Ahh e tal... não sei o que se passou com o meu telemóvel, penso que foi invadido por micro-extraterrestres que se alimentaram dos meus contactos e fiquei sem o teu número. Estas criaturas também me provocaram uma amnésia de tal forma grave que, durante dois anos, nem me lembrei que existias. Esqueci-me completamente do teu aniversário, do Natal e todas as épocas festivas, de querer saber se estarias bem de saúde e de todos os momentos que passámos juntos quando éramos crianças. Fui tantas vezes à tua terra e nunca me lembrei de te visitar! Mas na semana passada, tropecei numa pedra, recuperei toda a memória e lembrei-me da tua morada. Por isso aqui estou para te convidar para o meu casamento! Não estás feliz por me ver?
Estes "quase-qualquer-coisa" quase me divertem mas a idade é tramada e, estando eu nos "entas", quase não tenho paciência... quase...