quinta-feira, 27 de novembro de 2014

(in)Certezas



Todos os dias me deparo na minha vida profissional e pessoal com pessoas cheias de certezas absolutas. Todos os dias observo pessoas cheias de certezas absolutas nos meios de comunicação social. Todos opinam, todos sabem, todos comentam. 

Eu só tenho uma certeza absoluta: nasci e um dia morrerei.

Confesso que me causa alguma estranheza estas pessoas tão sábias e esclarecidas, que vêem tudo com uma clarividência tal, como se tivessem epifanias de cinco em cinco minutos! Para elas tudo é linear, rectilíneo, preto ou branco, defendem as suas certezas até às últimas consequências, não considerando sequer a possibilidade de estarem erradas e jamais mudam de ideias. É tão simples apontar o dedo... difícil é calçar os sapatos do outro e percorrer o mesmo caminho! 

A vida nunca é preto ou branco, é também cinzento, amarelo, verde e todas as cores possíveis e imaginárias e é por isso que eu vivo com dúvidas, muitas dúvidas, diariamente! E considero que ter dúvidas não é sinónimo de insegurança, ou gosto de pensar que não... Porém, se ter dúvidas for, de facto, sinónimo de insegurança, prefiro-a à arrogância de tudo saber.

A História é a prova de que as dúvidas sempre levaram o Homem muito mais longe do que os dogmas, se assim não fosse, ainda estaríamos a condenar Galileu e ridicularizar a teoria do heliocentrismo.

Posto isto, se algum dia deixar de ter dúvidas e passar a ter apenas certezas absolutas, será o dia em que apenas existirei fisicamente e morrerei intelectualmente.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quase-qualquer-coisa


O ser humano é de tal forma complexo que, creio, se todas as ciências se unirem, não conseguirão desvendar totalmente os segredos desta espécie.

E como ser complexo que é, tece teias sociais igualmente complexas. Sem me alongar demasiado sobre esta temática, até porque não sou especialista e tenho coisas mais interessantes para fazer, apenas me vou debruçar (salvo seja) sobre os "quase-qualquer-coisa".

Quem são os "quase-qualquer-coisa"? 

São os "quase-namorados", os "quase-amigos", os "quase-familiares" (com ou sem laços de sangue), etc..

Gosto desta subespécie. Têm o seu quê de enigmático... São aqueles que, por artes mágicas, aparecem e desaparecem sem percebermos muito bem como e porquê.

Gostam de nos colocar em banho-maria à espera do momento em que deixam de ser "quase" e passam a ser efectivos. Por norma, têm sempre uma explicação lógica para as suas ausências e, como tal, o nosso dever é de os receber de braços abertos e com a gratidão de um chocolate resgatado de uma vitrina ao sol. Caso não se sintam acolhidos como pensam que devem ser, fazem questão de deixar bem claro que estamos a cometer uma falha grave e dificilmente nos perdoam. São, portanto, uma subespécie com um ego hiper desenvolvido e com um défice de capacidade de socialização que os impossibilita de se colocarem no lugar do outro. "Eu, me, mim, migo" são os únicos pronomes que utilizam.

Quando o "eu, me, mim, migo" sente que está na altura, reaparece com todo o seu esplendor e sempre com uma história bonita para contar. Talvez fosse interessante compilar estas histórias num volume para facilitar a tarefa de escolher a que mais se adequada a cada situação... Tenho até uma sugestão para o título deste compêndio: "Desculpas esfarrapadas". Lindo! Todo o "quase-namorado", "quase-amigo" ou "quase-familiar" digno desse nome deveria possuir um exemplar.

Já estou a imaginar...

"Quase-namorado": - Ahh e tal... eu era para ter aparecido no dia combinado para oficializarmos o namoro mas houve uma inundação lá no trabalho e, curiosamente, a minha cadeira foi apanhada na corrente e eu não tive hipótese de sair. Fiz duas circum-navegações e, numa delas, fui picado por uma raia gigante, estive a recuperar um ano numa tribo da Amazónia, regressei a nado, finalmente, cheguei! Não estás feliz por me ver?

"Quase-amigo": - Ahh e tal... eu quis muito ir visitar-te quando estiveste doente mas fui ao Egipto e fui apanhado numa tempestade de areia, fiquei soterrado e tive de escavar um túnel com o único objecto que tinha no bolso, um palito de madeira. Escavei durante um ano, dois meses, quinze dias e dezassete horas. Quando me libertei da areia fui atropelado por uma cáfila em transumância e fiquei inconsciente durante mais oito meses. Quando acordei, o meu único pensamento foi rever-te, meu querido amigo! Não estás feliz por me ver?

"Quase-familiar": - Ahh e tal... não sei o que se passou com o meu telemóvel, penso que foi invadido por micro-extraterrestres que se alimentaram dos meus contactos e fiquei sem o teu número. Estas criaturas também me provocaram uma amnésia de tal forma grave que, durante dois anos, nem me lembrei que existias. Esqueci-me completamente do teu aniversário, do Natal e todas as épocas festivas, de querer saber se estarias bem de saúde e de todos os momentos que passámos juntos quando éramos crianças. Fui tantas vezes à tua terra e nunca me lembrei de te visitar! Mas na semana passada, tropecei numa pedra, recuperei toda a memória e lembrei-me da tua morada. Por isso aqui estou para te convidar para o meu casamento! Não estás feliz por me ver?

Estes "quase-qualquer-coisa" quase me divertem mas a idade é tramada e, estando eu nos "entas", quase não tenho paciência... quase... 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

13.11.2010 15.20


Nunca gostei de datas, isto é, de datas impostas, em que é suposto fazermos ou comemorarmos algo. A grande excepção será o Natal e os aniversários. Não gosto que determinados dias no calendário ditem como devo agir ou os outros devem agir comigo. Fui habituada desde criança a não valorizar dia da mãe e dia do pai porque dia da mãe e dia do pai são 365 dias nos anos normais e 366 nos anos bissextos. Não gosto do dia de São Valentim e dos coraçõezinhos e cupidinhos e ursinhos fofinhos e florzinhas e bombonzinhos, dia dos namorados tem de acontecer todos os dias e ser comemorado todos os dias, porque apetece, não por imposição. Até a passagem de ano não é um dia que me agrade totalmente... prefiro não ter planos e deixar a noite fluir de acordo com o momento do que ter de estar num restaurante, em turnos, a pagar 300 por cento do que devia, a engolir passas empurradas por champanhe só porque é suposto divertir-me e cumprir os rituais.

Mas há datas que marcam. Há datas que ficam irremediavelmente associadas a acontecimentos bons e outras a acontecimentos maus. E é assim que tem de ser... acontecimentos bons para recordar e maus para me fazerem crescer.

Dia 13 de Novembro de 2010. Apenas uma data mais no calendário. Passado. Passado no tempo mas bem presente na minha memória. Um ponto de não retorno. Hora 15.20. Às 15.21 já não era a mesma. Ao contrário da entrada nos "entas" que não surtiu qualquer efeito, este minuto do dia 13 de Novembro de 2010 mudou-me para sempre. Mudou a minha vida e a minha forma de ver o mundo. Aquele minuto obrigou-me a ir buscar forças onde eu não sabia existirem. Fez-me pensar muitas vezes em mudar de rumo, optar pelo mais fácil. Não mudei de rumo. Foi uma escolha difícil. Não me arrependo. 

Aquele minuto mudou-me! Apesar de ter duvidado muitas vezes da minha capacidade de superar o que aquele minuto me trouxe, hoje sei que estou mais forte. 

E é assim que vivo mais um dia do calendário, com a memória daquele dia.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Eu e os livros


Os livros sempre fizeram parte da minha vida. Não sabia juntar duas letras e já convivia com livros. A estante da casa dos meus pais sempre teve livros, muitos livros, e eu sempre fui estimulada a folheá-los e a estimá-los como algo de precioso. Recordo-me de ler livros como "A Costa dos Murmúrios", "Crónica dos Bons Malandros", "O Delfim", etc., numa idade em que não tinha maturidade para os compreender totalmente.

Excepto alguns exemplares que, por sugestão dos meus pais e para que apreciasse a importância da partilha, ofereci a uma biblioteca infantil, conservo os meus livros de infância. Do mesmo modo, conservo todos os livros dos teen, dos intas e dos entas. Confesso o meu lado egoísta no que diz respeito a esta matéria. Não gosto de emprestar livros, assim como não gosto de pedir emprestado. Para mim, os livros estão ao nível do que se diz para os cônjuges e para os automóveis... não se emprestam nem se pedem emprestados. As poucas vezes que emprestei livros fi-lo porque sabia que iriam regressar às minhas mãos tal e qual como tinham sido entregues. Bem sei que é uma forma de poupar dinheiro e espaço mas o lado emocional tem pesado mais do que o material...

Adoro perder a noção do tempo numa livraria. Há algo mais estimulante do que uma estante repleta de novos exemplares à espera de serem descobertos? Gosto de lhes mexer, ver a capa, a sobrecapa e a contracapa, ler a sinopse, sentir-lhes o cheiro. Gosto de sentir que há um sem fim de visões do mundo a conhecer. E como detesto ser interrompida e arrastada deste estado zen por um funcionário solícito com o seu "bom dia, posso ajudar?" (como quem diz: despacha lá isso que eu preciso de facturar). 

Ler faz bem... está provado cientificamente! Estimula o cérebro e previne doenças. Serve de calmante ou excitante, consoante o tema. E, tal como nas farmácias, há temas para todos os males/gostos. Se me quiserem matar de tédio, ofereçam-me livros de auto-ajuda, romances lamechas e cor-de-rosa do prefácio ao posfácio ou livros em sagas sobre vampiros ou delírios sexuais de donas de casa, que servem apenas como minas de dinheiro. Se me quiserem ver feliz, ofereçam-me livros com uma boa dose de realidade, sejam totalmente ficcionais ou baseados em factos reais, mas que sejam credíveis, bem estruturados e bem escritos. Não há nada pior do que um escritor que toma o seu leitor por garantido e que não se dedica de corpo e alma à escrita. Não é possível ludibriar um leitor.

Ainda não me converti às novas tecnologias no que diz respeito à leitura, talvez o faça um dia, pelo meio ambiente e pela escassez de espaço na minha biblioteca pessoal, mas creio que sentirei a falta do toque do papel e da sensação boa de virar a página. E como farei quando terminar o livro? Tenho por hábito, quando termino um livro, ficar uns momentos com ele no regaço, a pensar sobre o que aquela forma de ver o mundo acrescentou à minha forma de ver o mundo e a contemplar mais uma vez a capa, a sobrecapa e a contracapa. Com um livro electrónico conseguirei manter este hábito? Talvez não... mas a vida é assim, evolução e mudança de hábitos... 

Há, porém, um hábito que não pretendo mudar, o da leitura. Sempre esteve presente na minha vida, faz parte de mim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Da confiança


Esta coisa dos "entas" faz com que dê importância a determinados assuntos que, há uns anos, nem me passavam pela cabeça. Digo que é dos "entas" porque não ando a ler filosofia nem livros de auto-ajuda e também não sou muito dada a leitura de obras ou grandes frases lamechas sobre a vida e afins.

Bom, voltando ao assunto, ultimamente dou por mim a pensar que na minha vida, cada vez mais, a confiança é o elemento mais precioso. Muitos poderão advogar a causa da saúde ou a causa do amor, por exemplo... Para mim é a confiança... Não a confiança cega que gera ignorância, passividade, ingenuidade, mas a confiança que dá garantias, ânimo e alguma segurança. 

Considero importante poder confiar num médico quando estou doente e, principalmente de sentir que posso confiar. 

Seria bom poder confiar nos políticos do meu país e no rumo que vão traçando para todos nós, mas não posso... lá está, se confiasse seria confiança cega... A falta de confiança na política gera incerteza em relação ao futuro económico, social e até cultural. E como é possível trabalhar, desenvolver projectos, viver num país que não tem confiança nos seus dirigentes máximos?

Do mesmo modo, seria bom poder ter confiança na justiça deste país e nas forças de segurança mas, com tanto ladrão que vai para a prisão por roubar um pão e com tanto doutor que vai para uma ilha paradisíaca por roubar um milhão (ou muitos) e ainda recebe uma condecoração, não há a mínima possibilidade de confiar...

E como é bom ter alguém em que é possível confiar, seja um chefe, um subalterno ou um colega; um amigo ou um familiar. Ter a noção de que aquela pessoa está lá nos momentos bons e maus e que dá a palmadinha nas costas quando é merecida, mas também dá o estalo na cara quando é preciso. 

A confiança... 

Elemento fundamental e que tem tanto de forte como de frágil. A confiança une e a falta de confiança desune. A confiança segura pela mão e a falta de confiança empurra para o chão. A confiança é difícil de conquistar e fácil de perder e, uma vez perdida, tão difícil de recuperar... Recuperar a confiança perdida dá trabalho, requer esforço, é um processo com avanços e recuos, que exige dedicação e vontade e que, no final, não volta a ser como era.

Como se devolve a confiança ao doente mal diagnosticado, ao eleitor desiludido, ao empresário falido e ao empregado despedido, ao cidadão injustiçado, ao amigo ou familiar esquecido, à criança maltratada, ao cônjuge traído...?

A confiança... para mim o pilar de tudo... não a confiança cega mas a confiança confiança que une, a confiança que valoriza, que dá esperança e amparo, que permite acreditar em si próprio e avançar apesar dos medos, a confiança...