Lembro-me de, em miúda, lá por volta de mil novecentos e... cooooffff... 'tenta e poucos, adorar os meus aniversários. Eu, a campeã da ronha matinal, era capaz de me levantar ainda antes das galinhas e andar aos pulos pela casa fora, tal era a excitação.
Normalmente nestes dias, a casa ganhava um cheiro bom a bolo que eu fazia sempre questão de provar "discretamente" quando não era suposto fazê-lo. Creio que, por essa altura, cheguei a desenvolver uma técnica apurada de prova à prova de prova, isto é, metia a unha no bolo e retirava uma pequena amostra para análise e o bolo, à vista desarmada, parecia imaculado. Alguém tinha de servir de cobaia, não era? Não fossem os convidados não gostar do bolo ou, pior, apanharem uma intoxicação... Como eu era já uma criatura preocupada e dedicada...
Bom, a verdade é que a minha mãe, cozinheira de mão cheia, era a verdadeira escrava e preparava festas dignas do jet set internacional para dezenas de índios de palmo e meio... sim... dezenas... porque gaja que é gaja, mesmo sendo mini gaja, tem de garantir animação e prendas...
Com a passagem dos anos, os aniversários foram perdendo o seu encanto. Não porque me fizesse confusão ficar mais velha, mas porque simplesmente não me apetecia festejar. Tive inúmeras festas e, curiosamente, um dos aniversários que melhor recordo foi um em que umas colegas de secundário, no recreio, foram ao bar e compraram uma fatia de torta, espetaram-lhe um fósforo e me cantaram os parabéns mesmo ali. É incrível como os pequenos gestos são os que maior significado têm...
Nas vésperas do dia X pensei que, já que ia entrar nos terríveis "entas", o tal vórtice sugador de juventude, porque não fazer uma festa? Já que era para começar o declínio, que fosse em grande estilo... Ora bem, convém esclarecer que "grande estilo", para quem não comemora aniversários, corresponde a qualquer coisa como "reunir a família e amigos mais próximos e fazer um lanche".
Chegou então o dia, o ponto de não retorno. Curiosamente, às 00h01m do dia X sentia exactamente o mesmo que no dia X-1 às 23h59m! Oh Diabo! Afinal não era suposto ouvir a música da "Twilight Zone" e rodopiar como se não houvesse amanhã, enquanto era sugada por um enorme buraco negro? Mau mau Maria que me andaram a enganar! Mas pronto, não fosse a coisa funcionar com retardador, o melhor era aproveitar e seguir como se nada fosse.
E assim foi, cheguei aos "entas", embora sem prova "discreta" de bolo, foi em grande estilo e muito feliz, com a família e os amigos comigo e ainda com alguma juventude para gastar.

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