terça-feira, 14 de outubro de 2014

Peixe, pescadores, peixeiras e peixeiradas


Sendo eu natural de uma terra banhada pelo mar, tenho um enorme respeito pelas pessoas que fazem dele a sua vida. 

Admiro os homens que se lançam ao mar a horas em que o comum dos mortais dorme o seu sono reparador, que arriscam muitas vezes a vida em troco de uns cabazes de peixe e uns tostões no bolso e que, mesmo vivendo uma vida difícil, não a trocariam por outra alguma. 

Gosto das peixeiras, da sua genuinidade e vitalidade. Lembro-me de, em criança, ser muitas vezes acordada pelos pregões "Olhá sardinha frescaaa, vivinha da costaaa!", "Olhó chicharro fresquinhooo!" e ficar a pensar como conseguiam levar aquelas cestas de peixe enormes à cabeça sem perderem o equilíbrio. Hoje já não há pregões mas elas continuam na sua labuta, embora com outros meios e noutros locais.

Gosto de peixe, gosto de pescadores, gosto de peixeiras mas detesto peixeiradas! Creio até que este termo se torna injusto. Mas o facto é que tenho alergia a peixeiradas, a trocas de palavras menos próprias e em tom desrespeitoso.

Isto de estar nos "entas", aliado à educação que os meus pais me deram e que eu prezo muito, faz com que não me envolva em situações do género. Infelizmente, numa outra encarnação devo ter sido uma pessoa terrível e estou a pagar nesta por todos os males causados... 

Há momentos, tive de me deslocar a uma estação dos CTT. Entrei, dirigi-me à máquina das senhas, verifiquei que estavam um senhor de alguma idade e uma mulher jovem à minha frente e que trocavam umas palavras. Como não sou pessoa de escutar a conversa alheia, aguardei serenamente que o tête-à-tête terminasse e, quando se afastaram, tirei a minha senha. A mulher jovem saiu,  o senhor ficou na fila e eu coloquei-me atrás a aguardar. Os números de senha sucederam-se até chegar o meu. Quando me dirigia ao balcão surge a mulher jovem em passo apressado e, dirigindo-se a mim num tom que não admito nem ao padre da minha paróquia, "Onde é que a senhora pensa que vai? Agora é a minha vez! Isso é que era bom! Chega depois de mim e quer passar à frente!". Eu fiquei ali, num misto de estupefacção e de respirações e contagens até 10, mostrei-lhe o número da minha senha que correspondia ao que o placard exibia. Não satisfeita, e alto e em bom som, "Não quero saber! Agora sou eu e mais nada! Olha a esperta! Queria ir à minha frente!".

Ora como eu gosto de peixe, pescadores e peixeiras mas fico cheia de urticária com peixeiradas, apenas sorri e respondi "Não seja por isso, faça favor..." e indiquei-lhe o balcão. 

Todas as almas presentes naquele local perceberam o que se passou, incluindo a senhora que estava atrás de mim e que tinha a senha com o número imediatamente a seguir. A mulher jovem saiu do edifício e não tirou a senha, voltou passado pouco tempo e já eu e a outra pessoa estávamos na fila.

Pensando bem, às tantas estava coberta de razão... eu devia ter adivinhado que ela ia voltar e devia ter ficado a aguardar junto da máquina das senhas que sua excelência tratasse lá da sua vidinha até decidir voltar e reclamar a sua preciosa vez.

É assim a vida... viva a pachorra dos "entas" e viva a boa educação!

Nota: A imagem é da autoria de um pintor que muito admiro: José Penicheiro.

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